Seja o parabrisa

O mundo está cheio de gente folgada e aproveitadora. Essas pessoas seguem a lógica do “o não eu já tenho. Então vale tudo para conseguir o sim.”, impondo-se de maneira agressiva ou invasiva e desconsiderando o limite que você impõe de respeito e desrespeito. Culturalmente, no Brasil, essa postura não só é comum como vista de maneira positiva. Ser aproveitador no país em que vivemos é algo bom porque assim se consegue aquela venda, aquele contrato ou reunião com o cliente.

Estudos científicos a respeito do assunto nos mostram que essa “folga”, no nosso cérebro, está relacionada diretamente com algo também muito comum no cotidiano brasileiro: a desonestidade. Dan Ariely, professor de Psicologia e Economia Comportamental na Universidade de Duke nos EUA, concluiu em um de seus estudos sobre desonestidade que é tão raro encontrar em nossas vidas pessoas completamente desonestas (sem nenhum escrúpulo) tanto quanto completamente honestas e que a grande maioria das pessoas é desonesta (ou honesta) dependendo da situação e de com quem está lidando. Por exemplo: Se uma pessoa é colocada em uma sala fechada com R$ 100,00 em trocados em cima de uma mesa e identifica que não será repreendida se tomar aquele dinheiro para si, a grande maioria das pessoas pegará uma pequena parte do dinheiro. O mesmo acontece em qualquer valor que seja disponibilizado.

Transmitindo isso para a folga que falamos no início do texto, pare para analisar quantas pessoas você considera folgadas ao seu redor. É muito mais comum encontrarmos pessoas que são folgadas apenas em algumas circunstâncias do que completamente “boazinhas” ou folgadas. Aqui entra a necessidade de se proteger, que vem da nossa habilidade de dizer não. Você deve conhecer alguém (e talvez seja você) que não possua essa habilidade. As consequências disso para alguém que sofre são severas. No mínimo, ficará triste mas, muitas vezes, acontece o que os psicólogos chamam de ruminação emocional – a pessoa fica mastigando repetidamente aquele acontecimento em sua mente, diminuindo sua produtividade e qualidade de vida.

Essa pessoa pode ficar por dias, semanas e meses pensando e se arrependendo de não ter negado realizar algum trabalho quando teve chance e, em momentos críticos, tornando-se ansioso e antecipando de maneira negativa um possível novo encontro com o “folgado”, por exemplo.

Podemos dizer que o ser humano é uma espécie social e hierárquica e a consequência disso é que nosso cérebro possui mecanismos para verificar a nossa posição nessa hierarquia. Estamos o tempo inteiro verificando se estamos no mesmo nível social dos indivíduos ao nosso redor. Se o seu cérebro chegar à conclusão que está em posição superior, tenderá a liberar mais dopamina e serotonina, que são hormônios responsáveis pela motivação e felicidade, respectivamente, o que faz com que você se sinta mais disposto e com melhor humor. Mas o inverso também é verdadeiro: posições inferiores liberam menos desses hormônios e faz com que você se sinta estressado, ansioso e tende a um espectro negativo de humor. Quando você está frente a um “folgado” e ele acaba cruzando o seu limite de respeito, é inevitável que o seu cérebro identifique que você está em posição inferior ao outro indivíduo, o que vai elevar o seu nível de estresse, piorar o seu humor e te deixar ansioso, antevendo o que acontecerá naquele cenário em um futuro próximo.

Mas o que isso tudo significa exatamente? Qual a consequência disso tudo para a nossa vida? E o que fazer para que você não sofra tudo isso?

O primeiro ponto que precisamos abordar é que, como demonstramos até agora nesse texto, você não tem o controle de como você vai se sentir quando aparecer o “folgado” da mesma forma que você não consegue controlar quando e por quem você se apaixona ou quando você sentirá desejo de comer aquela sua sobremesa favorita. O que você pode controlar é o seu comportamento perante àquela situação. Dito isso, não importa como você está se sentindo na situação de enfrentar o folgado. Apesar do caminho mais fácil para acabar com essa angústia ser dizer “sim”, assuma um compromisso racional com o seu cérebro e diga “não”. Estabeleça seu limite e deixe claro para o “folgado” que ele não pode passar.

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Um inseto só interrompe o seu vôo quando encontra um parabrisa. Quando você diz “não”, você está não só impondo os seus limites como aumentando o respeito que as outras pessoas tem por você e que você tem por si mesmo.

Então a dica de hoje é o título do nosso texto: Quando alguém tentar cruzar o seu limite, seja o parabrisa.

Seja o parabrisa

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